Vídeo nas Aldeias alerta para risco de perder acervo
Criado em 1986, o Vídeo nas Aldeias formou cineastas indígenas e acumulou 70 filmes. Agora, o acervo de 4 mil horas está ameaçado por falta de políticas de preservação digital.
Criado em 1986, o Vídeo nas Aldeias formou cineastas indígenas e acumulou 70 filmes. Agora, o acervo de 4 mil horas está ameaçado por falta de políticas de preservação digital.
Projeto Vídeo nas Aldeias alerta para risco de perder acervo
O Projeto Vídeo nas Aldeias, criado em 1986 pelo indigenista e cineasta Vincent Carelli, alerta para o risco de perder seu acervo de mais de 70 filmes e 4 mil horas de gravação. A ameaça vem da falta de políticas públicas e do alto custo de preservação digital, que exige servidores, HDs e manutenção constante.
O que é o Vídeo nas Aldeias e por que ele importa
O projeto nasceu em 1986 com a missão de capacitar e formar cineastas indígenas. Ao longo de 40 anos, ele formou gerações de realizadores e produziu um acervo de mais de 70 filmes, em colaboração com mais de 40 povos. Segundo Carelli, o material soma mais de 4 mil horas de gravação analógica e "outras tantas de digital nativo".
O alerta: acervo ameaçado por falta de preservação
Apesar da importância, o acervo está ameaçado. Carelli questionou, durante aula no festival Bonito CineSur, que termina neste sábado (01) em Bonito (MS): "Para que museu isso iria? Qual instituição poderia fazer esse trabalho que a gente faz de atender e dar acesso a coisas específicas?" Ele destacou que instituições públicas são mal financiadas e não estão preparadas para manter um acervo digital, "que é uma coisa muito mais cara do que guardar fita".
O custo do digital: mais caro e mais frágil
Daniela Siqueira, professora de audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), reforça que o crescimento da produção digital aumentou a preocupação com a preservação. "Quando o digital começa a chegar na nossa vida, ele vende uma ideia de que vai resolver todos os problemas. Ele não resolveu, criou outros problemas", disse. Antes, bastava um espaço físico para guardar filmes; agora, são necessários espaços digitais, nuvens, HDs externos e servidores, que "custam dinheiro, muito dinheiro".
Obsolescência: o digital não é eterno
Outro problema é a obsolescência. "Não é que você compra um servidor e ele vai te servir por décadas, não. Ele vai estar com você apenas por um determinado período", explicou Siqueira. A professora defende uma equação mais equilibrada entre o investimento em produção e em preservação. "No limite, nós estamos falando que em 20 anos o Estado brasileiro vai ter perdido todo o dinheiro que ele investiu em produção audiovisual nesse período."
Mais que filmes: identidade e memória
O Vídeo nas Aldeias também cumpre papel de dar visibilidade às lutas indígenas. "Esses filmes viraram como carteiras de identidade", definiu Carelli. Os vídeos permitiram que povos isolados se conhecessem e criaram novas dinâmicas internas. "O dispositivo do cinema criou novas relações internas na comunidade. Os jovens sempre olham para fora, mas com as câmeras, eles tinham que fazer o cotidiano da aldeia, procurar os mais velhos e, com isso, houve um encontro de gerações."
O papel das redes sociais e o futuro
Hoje, a construção da imagem indígena passa menos pelo cinema e mais pelas redes. "Nasceu uma nova categoria, que eles chamam de comunicadores indígenas. São pessoas que fotografam, escrevem, filmam e que escancaram a janela da visibilidade", afirmou Carelli. Para Siqueira, o projeto é um "enclave na nossa história brasileira", pois trouxe a luta política dos indígenas para a pauta social, especialmente a partir dos anos 2000, quando as imagens começaram a circular em escolas e festivais.
O que está em jogo: patrimônio e investimento público
A perda do acervo não é só cultural, é também financeira. "Quando a gente não faz um equilíbrio para a preservação, a gente está jogando dinheiro fora, com certeza, porque a gente está jogando patrimônio fora", ressaltou Siqueira. A solução, segundo ela, passa por criar políticas públicas que equalizem os financiamentos entre produção e preservação, sob risco de o Estado perder todo o investimento feito em audiovisual em duas décadas. preservação audiovisual no Brasil cinema indígena e políticas culturais
Perguntas Frequentes
Quantos filmes o Vídeo nas Aldeias produziu?
O projeto reúne um acervo de mais de 70 filmes, produzidos em colaboração com mais de 40 povos indígenas.
Quem criou o Vídeo nas Aldeias?
O projeto foi criado em 1986 pelo indigenista e cineasta Vincent Carelli.
Por que o acervo está ameaçado?
Por falta de políticas públicas de preservação e pelo alto custo de manter acervos digitais, que exigem servidores, HDs e manutenção constante.
Qual o tamanho do acervo em horas de gravação?
Segundo Vincent Carelli, o acervo possui mais de 4 mil horas de gravação analógica e "outras tantas de digital nativo".
O que acontece se o acervo for perdido?
Além da perda cultural e histórica, o Estado brasileiro pode perder todo o investimento feito em produção audiovisual em até 20 anos, segundo a professora Daniela Siqueira.
Wagner Pichetti
Crítica e cobertura independente de cinema, séries e streaming. Estreias, análises e onde assistir — sem viés comercial.
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