Calila das Mercês lança livro e celebra literatura no interior
Calila das Mercês lança Nódoa, primeiro romance, e celebra a literatura feita no interior. Ela é curadora do 4º Fliparacatu, que homenageia Milton Santos e Guimarães Rosa.
Calila das Mercês lança Nódoa, primeiro romance, e celebra a literatura feita no interior. Ela é curadora do 4º Fliparacatu, que homenageia Milton Santos e Guimarães Rosa.
Calila das Mercês lança livro e celebra a literatura feita no interior. A pesquisadora, jornalista e escritora é uma das curadoras da quarta edição do Festival Literário de Paracatu, cidade mineira a 500 quilômetros de Belo Horizonte (MG). O evento ocorre de 26 a 30 de agosto de 2026, no Centro Histórico, com entrada gratuita.
Calila assina a curadoria ao lado de Sérgio Abranches e Afonso Borges, idealizador e presidente do festival. Neste ano, o tema Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo propõe uma conversa entre dois pensadores do Brasil profundo: Milton Santos, cujo centenário foi comemorado em maio, e João Guimarães Rosa, que apresentava ao mundo o seu Grande Sertão: Veredas há 70 anos.
"Minhas primeiras escolas são os quintais: o sertão e o recôncavo baiano, duas geografias interioranas que compõem essa minha primeira relação com a literatura", conta Calila. Ela fala com carinho dos livros de Guimarães Rosa: Grande Sertão ela chama de "fabuloso", e Campo Geral, de 1956, a deixou "muito emocionada". Com Milton, ela divide o lugar, o território e o interior da Bahia.
A escritora, que já assinou eventos literários em Cachoeira (BA) e em Cavalcante (GO), celebra a realização desses encontros pelo interior do Brasil. Ao mesmo tempo, demonstra preocupação com o manejo dessas festas e com o risco de que se tornem palanques políticos, festas com "donos", que ditariam como a literatura deve adentrar esses locais. Ela defende um olhar respeitoso sobre o que é produzido em cada um desses lugares.
"Acho que o grande desafio é a gente produzir uma ideia de que o pensamento não chega de fora. Ele não, necessariamente, chega dos grandes centros", afirma. Para ela, Paracatu é um lugar que produz pensamento, com identidade e um jeito muito daqui de fazer acontecer. Entre os nomes que passam pelo festival este ano estão Mia Couto, Alê Santos, Bruna Lombardi, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Jeovanna Vieira, Paulliny Tort e Renato Nogueira.
Calila lançou em julho Nódoa, seu primeiro romance, pela Companhia das Letras. O livro foi todo escrito em movimento: "Eu escrevi dentro do ônibus, eu escrevi em uma rodoviária, escrevi no barulho, escrevi com mudança", lembra. Nesse movimento, ela foi quatro vezes ao rio São Francisco e foi ver o maior cajueiro do mundo, buscando conexão com a natureza e a urbanidade.
Nódoa é narrado por Regina e por Lurdes Maria. As muitas mulheres do livro estão em constante movimento sem se perderem umas das outras. A obra também é pensada na forma, na materialidade da escrita, em maiúsculas e minúsculas, para traduzir cada personagem: a que não sabe ler nem escrever, a que fala baixinho, a artista plástica. "Uso muito silêncio nas páginas", conta Calila.
Para quem nunca viu o trabalho de Calila, Nódoa é um ponto de partida que conecta a oralidade do sertão à experimentação gráfica, uma ponte entre a tradição literária de Guimarães Rosa e as vozes contemporâneas do interior.
Henrique Vasconcelos
Crítica e cobertura independente de cinema, séries e streaming. Estreias, análises e onde assistir — sem viés comercial.
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